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Não há nenhuma regra objetiva de gosto, que determine
por meio de conceitos o que seja belo. Pois todo juízo proveniente
desta fonte é estético; isto é, o sentimento
do sujeito e não o conceito de um objeto é o seu fundamento
determinante. Procurar um princípio de gosto, que forneça
o critério universal do belo através de conceitos
determinados, é um esforço infrutífero, porque
o que é procurado é impossível e em si mesmo
contraditório.
O conceito de belo entra na crítica da obra de arte de parceria
com as noções de gosto, de equilíbrio, de harmonia,
de perfeição, efeitos que se produzem no sujeito apreciador.
Parece ser condição necessária ao despontar
do sentimento do belo a sensação de prazer e ou de
simpatia. As duas principais conceituações clássicas
do belo apresentam-no como "o que é agradável
à vista e ao ouvido".
Não é possível dissociar o belo do seu antônimo:
o feio. O adágio "Quem o feio ama bonito lhe parece",
mostra que os juízos sobre o belo e o feio são potencialmente
arbitrários. Se um objeto é considerado feio é
porque não possui aquilo que se julga ser belo, mas como
tal consideração é sempre subjetiva, o que
é feio para uns pode ser até sublime para outros e
vice versa.
O belo só faz
sentido para o homem, por isso tem que ser uma categoria que
está presente no Ser do homem. Mas o belo não
é determinante do Ser de todas as coisas para a qual
se dirige.
Daquilo que dizemos ser belo extrai-se um juízo de valor
que afeta a existência em si do objeto analisado. Uma
coisa é bela em função de uma simples observação
subjetiva, não se colocando em causa a existência
que a coisa tem em si mesma.
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É curiosa a história da representação
do belo no ocidente. Considerado fundamental em todas as épocas,
o belo sempre desafiou artistas e filósofos com sua inefabilidade.
Muitas épocas tentaram definir um padrão de beleza,
que a época subseqüente rejeitava ou transformava profundamente.
Coisas típicas e fundamentais da evolução humana.
Porém, se hoje estamos acostumados a pensar que muitos conceitos
"universais", tais como verdade, beleza, natureza são
vagos, construídos socialmente, enraizados nas culturas e
relativos a estas, o belo foi, em muitos momentos históricos,
definido e considerado algo objetivo e absoluto. Porém, a
noção do belo como algo objetivo, seja porque remete
ao divino, ao mundo das idéias, ou porque está ligado
a critérios e normas não metafísicas, não
resistiu na era moderna. A passagem entre a antiga concepção
objetivista do belo para a nova, subjetivista, marcou o abandono
da busca para uma definição essencialista de belo.
"A beleza", escreve Dieckmann, "já não
é mais uma essência, uma característica objetiva,
ou uma relação. Sua fundação está
na resposta de nossos sentimentos, emoções, ou em
nossas mentes".
Nenhum outro animal na natureza transforma o próprio corpo
tão violentamente como os seres humanos. Essa transformação
é parte do processo de humanização, que transforma
o corpo num artefato cultural. Perfurações, tatuagens,
escarificações, pinturas, são exemplos de modificações
que funcionam como sinais de identidade social. Esses sinais, por
sua vez, podem variar conforme cada cultura e também conforme
os diferentes segmentos sociais no interior de um mesmo grupo, de
acordo com a religião e o momento histórico.
O mundo exibe tantas e tão
numerosas variações biológicas e culturais
que é um erro supor um universo padronizado dos modos
de definição, avaliação e representação
da beleza. Cada cultura define a beleza corporal à sua
própria maneira.
Revistas especializadas em regimes, dietas, cirurgias plásticas
estéticas, aplicações de botox, academias,
musculação, spas, programas de transformação
da aparência veiculados nos meios de comunicação,
vícios nossos da modernidade, transformaram a beleza
sinônimo de obsessão pela magreza e pela juventude.
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Em nome delas, abomina-se a flacidez da pele a gordura e a velhice.
Assim, uma série de novas tecnologias médicas e cosméticas
encontra-se disponíveis, para que cada indivíduo possa
melhorar a sua imagem pessoal, conseguindo, assim, mais auto-estima
e oportunidade de sucesso.
O objetivo é se aproximar o máximo possível
das imagens dos corpos perfeitos e até inalcançáveis,
vendidos pela indústria da beleza.
Historicamente, é associado à mulher o binômio:
beleza e fertilidade, estando o último aspecto referido a
tudo que difere a sua anatomia da masculina, ou seja, aquilo que
em suas entranhas é produzido. Entretanto, a cultura atual
parece demonstrar que nem mesmo a gravidez justifica as marcas deixadas
pela natureza, logo, os traços remanescentes do processo
da maternidade devem ser extirpados do corpo feminino.
Ressignificados e afastados do ideal de juventude, esses traços
são interpretados pela cultura como feios e, portanto, devem
ser eliminados, reiterando mais uma vez a máxima de que só
fica feio quem quer.
Os valores que dão sentido à crescente procura pela
cirurgia plástica estariam atrelados a "psicologização"
da experiência com o corpo que transparece, segundo ela, nas
justificativas mais comumente dadas para a realização
de cirurgias: sentir-se bem consigo mesmo, melhorar a auto-estima
ou "gostar do seu corpo".
É através das imagens dos corpos
perfeitos tratados digitalmente nas máquinas computadorizadas,
nos modelos e em outros ícones da cultura pop na TV e
no cinema que um padrão estético, baseado na perfeição,
na magreza e na juventude, é disseminado pela mídia
e alimentado pela indústria da beleza. Padrão
impossível de ser alcançado, porque é irreal
e virtual.
O corpo, hoje, é visto como um projeto, um sacrifício
para se alcançar o desejo do que se quer ser e se sentir
satisfeito. O problema é que esse projeto nunca é
finalizado, é uma promessa impossível de ser alcançada,
porque o modelo ideal de beleza é virtual e, por isso,
perfeito, estático. O tempo não segue a ordem
natural da idade real, basta uns ajustes de Photooshop.
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Por conta do diálogo entre aparência corporal e imagem,
a realização de cirurgias plásticas não
é uma prática muito recorrente entre os modelos fotográficos.
Ao mesmo tempo em que existe a imposição de um padrão
estético, existe também a valorização
de uma beleza natural, dos atributos naturais. Mas, as próteses
de silicone, entre as modelos comerciais, costumam fazer parte dos
apelos do corpo exibido nas campanhas publicitárias como as
de lingerie ou de cerveja. Pura provocação fetichista
e vouyerista para induzir o verbo consumir.
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Todo esse percurso histórico deixa bastante claro a ênfase
que vem sendo dada cada vez mais às práticas de
culto ao corpo, bem como às técnicas de aperfeiçoamento
da imagem corporal. As interferências, transformações
e todos os métodos de disciplinização do
corpo, acompanhados da moralização da beleza,
buscam esse caráter de permanência do belo corporal
narcisista. Não se pode esquecer que dentro desta moralização
está implícita a relação da beleza
com a sensualidade, atiçando constantemente a sexualidade.
As técnicas de reversão do processo de envelhecimento
nos remetem ao tão sonhado projeto evolucionista do corpo.
Atingida a sua maturidade, o corpo estaria livre de todas as
enfermidades e intempéries; o corpo anseia por não
mais fenecer. A tentativa pós-moderna parece ser a subversão
da condição humana de mortal. |
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Desta forma a vida não seguirá o
seu curso natural: nascer, viver e morrer.
Achamos que a tecnologia e os desejos de se modificar poderão
ser naturalmente possíveis, desde que sejam saudáveis,
pois há o tempo certo para tudo: fazer e parar de fazer.
Não se trata, certamente, de negar os avanços
da ciência e, sim, de estar atento à dimensão
de controle e regulação de nossos corpos. Por
isso, torna-se fundamental refletir a cerca da sociedade de
imagens na qual vivemos. |
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E, não acredite que este mundo só
é feito para os magros, jovens, brancos, caucasianos
e sem nenhum tipo de deficiência física. Se assim
fosse, o que seria de nós, brasileiros com tantas diversidades. |
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