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Cicatrizes e Quelóides
Filosoficamente cicatriz pode significar desde um sentimento deixado por um
sofrimento ou abalo moral, marcas deixadas por uma guerra ou destruição na natureza,
até as cicatrizes propriamente ditas em medicina, resultantes de uma reparação
tecidual em uma área que sofreu alguma injúria ou lesão. Não podemos esquecer
que invariavelmente todo indivíduo carrega uma marca ao nascimento: a cicatriz
umbilical. É difícil imaginar alguém sem esta cicatriz e na atualidade há até
quem a adorne com uso de piercing.
No curso de nossas vidas podemos adquirir cicatrizes as quais não desejamos,
mas que na maioria deixarão marcas tão imperceptíveis que não chegam a incomodar.
É o caso das cicatrizes de acne que apenas em um percentual pequeno de casos,
cuja afecção é mais intensa, deixará cicatrizes inestéticas necessitando correção
pelo cirurgião plástico. As estrias e celulite também são consideradas cicatrizes,
pois resultam de processos de reparação natural após descontinuidade tecidual
ou processo inflamatório.
O medo de uma cicatriz queloidiana, alargada ou ainda com alteração de cor,
quer seja escura ou esbranquiçada, assusta o paciente que deseja submeter-se
a uma cirurgia. Contudo, o conceito de beleza é variável nas sociedades e algumas
tribos africanas induzem a formação de quelóides no próprio corpo como forma
de embelezamento e identidade. Sabe-se que estatisticamente pessoas de cor escura,
povos como os ingleses e os judeus apresentam maior propensão à hipertrofia
de cicatrizes, porém igualmente sabe-se que isto não é uma regra matemática
e que em uma sociedade miscigenada com a nossa, este critério torna-se falho.
Um mesmo indivíduo pode apresentar um quelóide em uma região do corpo e ter
uma boa cicatriz em outra, assim como pode ter uma boa cicatriz de uma cirurgia
previa e desenvolver um quelóide em uma seguinte. Tudo isto por variantes individuais
e preferência por regiões determinadas.
O cuidado na avaliação prévio do caso, procurando história pregressa ou familiar
de má cicatriz será importante para traçarmos medidas preventivas. O cirurgião
plástico experimentado utiliza boa técnica operatória além de todos os recursos
preventivos disponíveis, com a finalidade de obter uma boa cicatriz, que seja
também pouco visível e bem mimetizada. O posicionamento das cicatrizes obedece
a linhas naturais de menor tensão no corpo (linhas de Langehans). Os cuidados
pós-operatórios serão divididos com o paciente que deve seguir as orientações
médicas, com repouso adequado, massagens e compressão das cicatrizes quando
indicado.
Em casos onde é confirmada a tendência à formação de quelóides, o recurso da
radioterapia superficial na prevenção do quelóide é de grande valia e oferece
bons resultados, viabilizando a cirurgia. Mas este tratamento deve ser feito
nas primeiras 48 horas de pós-operatório e por profissional da área de radioterapia.
O tratamento de uma cicatriz queloidiana já formada e antiga obedecerá a critérios
de avaliação quanto à sua extensão, sintomatologia (dor, prurido, retração,
etc.), faz-se desde massagens e compressão com placas de silicone ou espuma,
aplicação de corticóide local (lesões reduzidas) ou parte-se para a ressecção
intra-lesional seguida de radioterapia preventiva. Vale explicar que a simples
ressecção de um quelóide pode resultar em um outro ainda maior mesmo quando
respeitados os critérios técnicos de prevenção.
São muitos os mistérios que ainda rondam o conhecimento da ciência médica, entretanto
a cada desafio encontrado o homem procura meios para desvendá-los. A genética
é o portal para esses e outros esclarecimentos.
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