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Augusto Paulo Marques Linhares Pinto

Médico formado pela UFRJ, com residência em Hematologia / Hemoterapia e título de especialista em Hematologia / Hemoterapia pela Sociedade Brasileira de Hematologia / Hemoterapia, da qual é membro.


Anemia pré-operatória – uma visão geral

“Doutor, Estou com anemia, posso operar?”



Esta pergunta, aparentemente tão simples é feita várias vezes e, garanto que sempre recebe uma resposta diferente.Isto acontece porque, na verdade, a anemia não é uma doença em si. Ela é uma manifestação de anormalidade no organismo, um sinal que se manifesta em diversas situações, algumas simples, outras mais complexas, ou seja, a anemia, assim como a febre, não é necessariamente um problema, mas um indicativo de problema.

Para compreendermos o que a anemia pode representar é interessante entendermos um pouco sobre o sangue.

O sangue é uma maravilhosa força de nosso corpo; possui inúmeras funções, entre elas, serve como meio de transporte de nutrientes para todo nosso organismo, e também para remover resíduos que cada uma das nossas células produz continuamente que de outra forma poderia se acumular em níveis tóxicos e causar danos a nossa saúde.Porém, alguns elementos, especialmente o oxigênio, são de difícil transporte, já que não são solúveis. No caso do oxigênio, elemento fundamental para o nosso metabolismo, a natureza desenvolveu um engenhoso modo de transporte, uma molécula chamada hemoglobina com uma molécula de ferro no centro, que prende este oxigênio e só liberando-o próximo dos tecidos. O transporte destas moléculas se faz através das hemácia ou células vermelhas ou eritrócito do sangue que é uma espécie de envelope recheado de hemoglobinas.

Chamamos de anemia o estado em que há uma redução de hemácias que circula no nosso corpo. O problema da anemia é que há menor oferta de oxigênio para nossas células. Como este é o combustível que nos mantém funcionando, sua falta pode causar inúmeros problemas, como mau funcionamento cardíaco (por má oxigenação do coração), mau funcionamento cerebral (causando cansaço e sonolência). Nos casos de anemia de longa duração, aquelas que duram meses, surgem outras manifestações, como cabelo fraco e quebradiço, unhas finas e frágeis, feridas junto do lábio, além de outras.

Para uma pessoa que vai ser submetida a um procedimento cirúrgico, a presença de anemia representa dois problemas: Primeiro, como a pessoa já inicia o procedimento com um número menor de hemácias, terminará a cirurgia com uma quantidade ainda menor, isto é, a anemia será agravada, o que pode tornar os problemas relacionados à má oxigenação mais intensos. E o segundo problema, nem sempre muito percebido por quem deseja ser operado, é a causa da anemia.Assim é necessário investigar. De forma resumida, as anemias surgem devido a uma redução na produção de hemácias ou por um aumento na sua destruição.

No primeiro grupo estão às chamadas anemias carenciais, causadas por deficiências nutricionais, especialmente falta de ferro. Esta é uma das causas mais comuns de anemia, especialmente em mulheres, que perdem mais ferro que os homens devido ao seu ciclo menstrual. Mas há outros elementos cuja deficiência poderá causar anemia, como o ácido fólico e algumas vitaminas (por exemplo, a vitamina B12, presente em carnes).

Um alerta a ser observado é o fato de esconder o ferro é uma das estratégias utilizadas por nosso organismo para tentar combater infecções, pois com menos ferro algumas bactérias não sobrevivem. Desta forma a anemia poderá ser a única manifestação de algum processo infeccioso oculto.

As anemias podem também ser causadas por perda anormal de hemácias. Neste grupo encontram-se algumas doenças mais graves que podem gerar pequenos sangramentos ocultos, imperceptíveis, mas que, semana após semana, acabam gerando anemia. É o caso de úlceras gástricas e do câncer de cólon (intestino grosso), doença grave que às vezes tem como única manifestação à anemia.

Então, a pergunta no começo é simples só na aparência.

Na verdade, o melhor para o paciente é tentar definir a causa da anemia através de exames laboratoriais (exame de sangue: hemograma) e clínico, corrigi-la e assim, o paciente não só será operado com mais segurança, como também poderá resolver um outro problema, às vezes até grave.O paciente só deverá submeter-se a um tratamento cirúrgico seja ele qual for após a liberação e/ou acompanhamento de um clínico no que tange às condições gerais, ou do próprio hematologista e ainda do cirurgião que precisa desta condição para assegurar-se bem da estratégia ser adotada..


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