|
|
- Papiro de Edwin Smith, mais antigo, escrito 2500 a.C., refere-se
às operações plásticas do nariz, lábio
e outros. Encontrado também em Tebas no Egito em 1861. Neste
encontramos ainda prescrições como: "receitas para
embelezamento da pele" e a curiosa "receita para transformar
um velho em um jovem".
- O livro de Susuruta, o "Ayurveda", um compêndio
misto entre o sagrado e o cientifico, de 2000 a.C., faz referências
aos Koomas (casta hindu), oleiros de profissão para uns e sacerdotes
para outros, que praticavam a difícil arte de reconstrução
nasal, labial, auricular e outras. Para a correção de
certas mutilações, os hindus empregavam enxertos retirados
das nádegas e para o nariz faziam a reconstrução
com retalho de pele da fronte. A fixação dos mesmos
era feita com uma massa secreta de barro, argila, etc.; outras vezes
com azeite vermelho de sésamo acrescido de pós hemostáticos.
A cirurgia hindu começou a declinar na época de Buda,
em torno de 500 a.C.
-Hipócrates, 500 a.C., o "pai da medicina", preocupou-se
com os problemas da cirurgia plástica. Receitava pomadas
e ungüentos com a finalidade puramente estética, como
no tratamento das sardas, calvície e excesso de pele. Fez
referência às fraturas do nariz e dizia "as partes
devem ser modeladas imediatamente, se possível".
- Aulus (Aurelius) Cornelius Celsus, marca época na história
da cirurgia plástica com seus trabalhos sobre enxerto por
deslizamento. Celsus que pode ser chamado o Pai da Cirurgia Plástica
nasceu em Roma e é o espelho da Escola de Medicina de Alexandria.
No seu livro "De Re Medica", escrito 30 d.C., encontramos
uma segunda referência histórica da especialidade,
sendo este o documento médico mais antigo dos manuscritos
de Hipócrates. Aborda métodos reparadores para nariz,
lábios e orelhas com retalho de pele retirados das adjacências.
Celsus cuidou de problemas relacionados à correção
do entrópio e ectrópio palpebral, da ptose palpebral,
sindactília e das fissuras labiais. Segundo Davis, Celsus
não era médico praticamente, mas um senhor romano
com profundo conhecimento da medicina.
- Antylus reproduziu algumas operações da especialidade,
baseando-se muito provavelmente nos trabalhos de Celsus.
- Claudius Galeno, médico grego que passou a Roma refletindo
a escola de Hipócrates, emprestou especial carinho à
reconstituição de lesões nasais, auriculares
e bucais. Nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor. Deixou instruções
precisas e claras de como empregar o linho, a seda e o catgut nas
ligaduras hemostáticas. Iniciou-se neste período a chamada
"desorientação anatômica", como resultado
das crenças religiosas do cristianismo e do profundo respeito
devotado aos cadáveres. Infelizmente grande número dos
seus ensinamentos médico-cirúrgico era desprovido de
verdade científica. A infalibilidade das teorias galênicas
foi sustentada por Leonardo da Vinci e Versalius e outros e assim
permaneceram até o século XVII. Após a sua morte
seguiu-se a decadência do Império Romano pela invasão
bárbara, que mergulhou todo o Velho Mundo num ostracismo caótico
incrível.
- Paul de Egina, cirurgião militar e continuador da técnica
de Galeno, abordou o tratamento corretivo de lesões auriculares,
nasais e bucais, bem como foi o autor de uma técnica para
a remoção de seios hipertróficos no homem.
- Em Salermo, funda-se uma escola de medicina, tendo à frente
Rolando de Capezzutti. Henri de Modeville, também da escola
de Salermo, faz renascer a técnica rinoplástica. A
partir daí, já na idade média, a cirurgia plástica
passa pela sua fase mais obscura.
- Durante os séculos IX e XIII o monopólio da arte
de curar era compartilhada entre o clero e os judeus. As referências
à cirurgia plástica foram insignificantes. Apenas
algumas queiloplastias (reparação do lábio)
e reparações nasais são citadas. No decorrer
do século XIII o Papa Inocêncio XIII proibia as cirurgias
plásticas e as operações em geral.
(*) No tempo de Hipócrates e seus discípulos não
se fazia distinção entre medicina e cirurgia, apesar
de Galeno ter dito que "a cirurgia era somente um modo de tratamento".
A separação destas só ocorreu no século
XVII.
(*) Na época de São Benedito, os doentes eram assistidos
por monges de modo geral. Os médicos eram, ordinariamente,
membros de várias ordens religiosas como Franciscanos, Beneditinos
ou Dominicanos.
(*) Com o decreto de proibição do Papa Inocêncio
XIII, a prática operatória passou das mãos
dos padres para os barbeiros, carrascos, charlatões, capadores
de porcos etc.
(*) Com a lepra e a sífilis que assolou o sul da Europa e
já no renascimento, séculos XV e XVI, a cirurgia plástica
retoma seu fôlego pela terceira vez com as rinoplastias.
- Em 1442, Branca, de Catânia ou Messina (Sicília),
reparava defeitos faciais, principalmente o nariz. Branca aprendeu
a arte de restaurar narizes, suprindo-os com material retirado do
braço do paciente ou colocando sobre a região o nariz
de um escravo (relato descrito por Elysius Calentius). Branca filho,
chamado Antonio, querendo evitar uma lesão de acréscimo
numa região exposta, introduziu o verdadeiro retalho italiano
da face ântero-medial de um dos braços para reparar
a lesão nasal. Há relatos que nesta mesma época,
Mongitore e Baltazar Pavone reproduziram esta operação.
Em um trabalho publicado em Veneza em 1947 o professor de anatomia
Alexandre Benedictus relata, com riqueza de detalhes, como a técnica
cirúrgica era realizada. Em 1460, Heinrich von Pfalspeundt,
cirurgião do exército bávaro, fez menção
ao método de rinoplastia de Branca. Da Sicília este
método passou para a Calábria, através dos
Vianeos para o Velho Mundo. Com isso grande celebridades aperfeiçoaram
a arte de remendar narizes. E a Itália era o único
país onde se praticava a arte rinoplástica. Entretanto,
a prioridade do método italiano é atribuída
a Gasparo Taliacotius, Tagliacozzi, Tagliacus ou Tagliacotius, professor
de anatomia em Bolonha e o "primeiro a descrever cientificamente
esse método" no seu tratado de 298 páginas: "De
Curtorum Chirurgia per Insitionem", publicado em Veneza, no
ano de 1597 e reimpresso em 1598 em Francfurt.
(*) Os ataques dos teologistas da igreja romana logo começaram
e diziam que a "prática plástica interferia com
a obra de Deus e seu êxito deveria ser intervenção
do diabo". Tagliacozzi foi considerado agente do demônio,
foi impedido de divulgar sua obra e, mesmo depois de sua morte,
o Santo Tribunal da Inquisição mandou queimar a sua
obra. A revolta religiosa chegou ao ponto de exigir a exumação
de seu corpo das terras sagradas da igreja de San Giovanni Batista
e a transladação dos restos mortais para terras profanas.
Segundo Garrison, Tagliacozzi, por essa inovação registrada,
foi insultado por muitos durante todo o século seguinte,
o XVII.
- Em 1794 é publicada na Inglaterra uma descrição
da técnica de rinoplastia tal qual havia sido praticada na
Índia em tempos remotos, pelo testemunho de um correspondente
sob o título "Uma operação curiosa"
assinada por B.L.. E foi Carpue, cirurgião inglês,
o primeiro a executar um transplante frontal na Europa (método
indiano de reconstrução nasal). Assim, em 1850 o emprego
deste retalho na Inglaterra era bastante comum.
- Johann Friederich Dieffenbach, de Konigsberg, deu grande impulso
à cirurgia plástica, uma vez que o método italiano
foi ressuscitado na Alemanha, em 1816. Dieffenbach foi o maior restaurador
de narizes desde Tagliacozzi. Foi quem propôs confeccionar
um retalho de couro cabeludo para rinoplastias a fim de evitar cicatrizes
frontais.
- Jonh Peter Mettauer, americano, em 1827, realizou a primeiro
palatorrafia.
- Warren Jr, em 1834 realizou a primeira rinoplastia pelo método
italiano nos EUA.
(*) Em 1847 a anestesia geral e local é descoberta e as
cirurgias passam a serem realizadas com mais conforto e segurança
pelos cirurgiões.
(*) Pasteur (1822-1899) e Joseph Lister (1827-1912) com seus trabalhos
sobre anti-sepsia e assepsia, contribuem para a diminuição
das infecções no pós-operatório.
- Em 1869, século XIX, ressurge o transplante livre de tecido
ou enxerto, através do cirurgião suíço
Reverdin.
Daqui por diante diferente técnicas para cirurgias diversas
no corpo foram criadas em particular e dentre as últimas
contribuições, depois da lipoaspiração
na década de 1980, temos agora as reconstruções
parciais da face feita por cirurgiões franceses e recentemente
repetidas pelos chineses.
RINOPLASTIA - SUA EVOLUÇÃO
A RINOPLASTIA NO SÉCULO XX
Até o final do século XIX a rinoplastia era basicamente
uma cirurgia reparadora, empregada na reconstrução
de grandes mutilações nasais. No início do
século XX, a rinoplastia experimentou uma rápida difusão
mundial como procedimento estético. Dentre os principais
responsáveis por sua popularização, destaca-se
o cirurgião alemão Jacob Lewin (Jacques) Joseph, que
organizou os principais passos da técnica e a difundiu para
o restante da Europa. Aufricht levou a técnica para os Estados
Unidos.
INÍCIO DO SÉCULO XX: JOSEPH E A RINOPLASTIA REDUCIONAL
Os princípios básicos da técnica proposta
por Joseph no tratamento da ponta nasal requerem ressecção,
transsecção ou escarificação do ramo
lateral da cartilagem alar, realizadas por via intranasal ("fechada").
A remoção da giba osteocartilaginosa (elevação
no dorso nasal) pode levar em alguns casos a uma deformidade conhecida
como teto aberto ("open roof") e neste caso obriga a realização
da osteotomia lateral. A fratura dos ossos próprios nasais,
contudo, muitas vezes pode ser indicado, independentemente, para
tornar a pirâmide nasal mais fina. O domínio completo
da técnica de Joseph necessita de uma longa curva de aprendizado
e, por ser realizada sem visualização completa das
estruturas remanescentes, pode levar a resultados imprevisíveis
em longo prazo, especialmente se em mãos menos treinadas.
Tais fatos propiciaram o aparecimento de inúmeras deformidades
secundárias, tanto estéticas como funcionais. Apesar
disto, ainda hoje a técnica de Joseph é adotada e
ensinada por muitos cirurgiões plásticos.
METADE DO SÉCULO: PECK E A RINOPLASTIA DE AUMENTO
A partir da década de 1950, George Peck começou a
chamar a atenção para a priorização
da projeção da ponta do nariz, com utilização
de enxertos cartilaginosos do pavilhão auricular. Também
defendeu a redução conservadora do dorso osteocartilaginoso,
abandonando a utilização da serra e dos osteótomos
no tratamento da giba nasal. Peck afirmava que o tratamento da ponta
deveria ser feito antes do tratamento do dorso e desta forma a remoção
da giba seria cada vez menor.
DÉCADA DE 1980: SHEEN E A PREOCUPAÇÃO FUNCIONAL
Jack Sheen, um cirurgião com grande experiência em
rinoplastias secundárias, já havia constatado que
as principais conseqüências da técnica de Joseph,
em médio ou em longo prazo, eram: 1) a deformidade em "V"
invertido, na transição osteocartilaginosa do terço
médio do nariz, e a piora do fluxo aéreo nasal pelo
fechamento da válvula nasal interna e, 2) a perda da projeção
da ponta com surgimento da deformidade supra-ponta ("supra-tip")
e da ponta arredondada ("round tip") resultantes das ressecções
excessivas no ramo lateral das cartilagens alares.
Nos anos 80, Sheen propôs o emprego de dois tipos de enxerto
que representaram um grande avanço para a rinoplastia: o
"spreader graft" e o "tip graft". O "spreader
graft" (enxerto expansor) é utilizado para prevenir
ou evitar a deformidade em "V" invertido e para melhorar
a abertura da válvula nasal interna, mostrando desde este
momento uma preocupação com os aspectos funcionais
da rinoplastia.
O "tip graft" foi proposto para promover a projeção
da ponta nasal. Infelizmente, em muitos casos, ele se torna perceptível
("visível") sob a pele, principalmente em pacientes
com pele delgada ou mesmo em pacientes de pele espessa em longo
prazo.
DÉCADA DE 1990: TEBBETTS E OS PROCEDIMENTOS REVERSÍVEIS
A partir da década de 1990, John Tebbetts preconizou a utilização
sistemática da técnica aberta ("open rhinoplasty"),
com manobras conservadoras e reversíveis nas cartilagens
alares e com o uso de enxertos ocultos ("hidden grafts"),
situados entre ou sob o arcabouço original (os "struts")
substituindo os enxertos "visíveis", como o "tip
graft" preconizado por Sheen. O "strut" columelar
e os pontos transdomais e interdomais têm sido usados rotineiramente
a partir deste momento por grande número de rinologistas.
FINAL DO SÉCULO XX: GUNTER E AS VÁLVULAS NASAIS
No final do século, em 1997, Jack Gunter propôs uma
excelente técnica para tratamento do colapso ou da insuficiência
da válvula nasal externa e mesmo da válvula nasal
interna, o "lateral crural strut graft" (enxerto de suporte
do ramo lateral) complementando o tratamento funcional do "spreader
graft" proposto por Sheen.
Como pudemos observar, o século XX foi o século do
desenvolvimento da rinoplastia estética. Com o século
XXI, chegamos a uma rinoplastia mais conservadora, com manobras
de modelagem ao invés de ressecção nas cartilagens,
com redução importante da necessidade de osteotomias
ainda que necessárias em muitos casos, com resultados mais
previsíveis em longo prazo, com menor morbidade operatória
e, o que é muito importante, com a possibilidade do tratamento
funcional concomitante. Tudo isto, a nosso ver, é da competência
e da responsabilidade do cirurgião plástico, que deverá
estar preparado para avaliar a função nasal em todos
pacientes de rinoplastia estética, corrigir ou encaminhar
o tratamento das disfunções associadas e evitar as
alterações funcionais iatrogênicas. (Escrito
por José Carlos Ronche Ferreira - SBCP. Comentário:
BG Cirurgia Plástica).
 |
voltar
|
|