ARTIGOS
versão para imprimir


GINECOMASTIA E ANABOLIZANTES

Ginecomastia

A Ginecomastia consiste no desenvolvimento das glândulas mamárias do homem, tendo como resultado o famoso, indesejável e constrangedor "peitinho".
Seu aparecimento se faz de maneira normal e fisiológica nas fases de alterações hormonais nos meninos, sem nenhuma correlação patológica.



O desenvolvimento ocorre analogamente ao que ocorre nos seios da mulher.

A progesterona e o estrogênio são os principais hormônios produzidos pelo aparelho reprodutor feminino; mas o homem também possui estes hormônios, porém em quantidades bastante inferiores. No sexo masculino, eles são derivados da conversão de outros hormônios, como a testosterona e a androstenediona.

Estes hormônios, principalmente os estrógenos, quando em excesso no corpo masculino podem acarretar efeitos feminilizantes, sendo o principal a ginecomastia. Há outros fatores relacionados com o início e progressão, envolvendo também hormônios da pituitária, bem como mediadores locais. Fazem parte do processo, além dos estrógenos: o GH e o IGF-1, a progesterona e a prolactina.

Os estrógenos promovem o principal papel, que é o crescimento dos ductos das glândulas, enquanto a progesterona dá suporte ao desenvolvimento dos alvéolos. A prolactina é um outro hormônio produzido na pituitária anterior e nas próprias células epiteliais da mama, que estimula a proliferação celular e a diferenciação dos alvéolos, mas somente na presença de estrogênio ou de progesterona, respectivamente.

O nascimento constitui a primeira fase de uma possível ocorrência de desenvolvimento das glândulas mamárias em meninos e meninas, devido aos altos níveis de estradiol e progesterona, hormônios predominantemente femininos, herdados do corpo da mãe durante a gravidez. Pode persistir por algumas semanas, com produção, inclusive, de secreção leitosa. O surgimento deste desenvolvimento glandular poderá acontecer nas duas glândulas, ou apenas em uma, ou de maneira assimétrica entre as duas glândulas.

A puberdade é outro marco ou segundo momento no qual pode surgir uma ginecomastia fisiológica, por volta dos 14 anos de idade, podendo durar por até 3 anos. Nesta idade a relação estrógeno e andrógeno é alterada. É importante salientar que a produção estrogênica se dá durante todo o período diurno, em contraponto à testosterona, que é estimulada principalmente à noite.

A terceira fase de surgimento da ginecomastia fisiológica é a velhice, mais ou menos aos 60 anos. Embora ainda não bem esclarecida, este tipo de ginecomastia ocorre provavelmente pela excessiva produção da enzima aromatase, bem como pelo hipogonadismo ou funcionamento insuficiente dos testículos, relativo à idade avançada.

Há outros fatores que podem levar a um aumento das concentrações de estrógenos, ou mesmo agindo por outros mecanismos, podendo causar ginecomastia: tumores, aumento da atividade da enzima aromatase, uso de certas drogas, entre elas: HCG (gonadotrofina coriônica), maconha, agentes citotóxicos, drogas anti-androgências (espironolactona, ciproterona, flutamida, cetoconazol) e os anabolizantes.

É preciso diferenciar também uma ginecomastia verdadeira de uma pseudoginecomastia ou lipomastia. A diferença está no tipo de conteúdo mamário predominante em seu aumento de volume. A pseudoginecomastia trata-se apenas de aumento mamário predominantemente causado por tecido gorduroso e a ginecomastia verdadeira ao aumento com predomínio de tecido glandular e estroma mamário.

Anabolizantes


Na China, o Imperador Shen-Nung, cuja dinastia viveu cerca e 2.700 anos a.C., já conhecia os efeitos estimulantes da infusão "machuang", uma folha que contém altas concentrações de fedrina que era rotineiramente utilizada para aumentar a capacidade do trabalho braçal.

De acordo com os relatos de Philostratus, já nos Jogos Olímpicos da Antigüidade, que foram iniciados no ano 800 A.C., os atletas bebiam chás de diversas ervas e comiam certos tipos de cogumelos, buscando aumentar seu rendimento atlético nas competições.

No final do século XIX, quando o esporte começou a ser organizado internacionalmente, um alquimista da Córsega com o nome de Mariani produziu um vinho com folhas de cocaína, chamado de "Vino Mariani", que se tornou bastante popular entre os ciclistas da época. O pacifista francês Barão Pierre de Coubertin organizou os primeiros jogos Olímpicos da Idade Moderna no ano de 1896, em Atenas, capital da Grécia. Nesta época, os atletas já conheciam o uso de estimulantes, particularmente a cocaína, a efedrina e a estriquinina e as utilizavam em forma de pequenas esferas, chamadas de "bolinhas"; deste fato é que surgiu os termos "usar bola", bolar , "emboletar-se e "bomba" nos dias de hoje.


A maioria dos esteróides anabolizantes são derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona, geralmente retirado do testículo do boi. A substância faz o anabolismo protéico, um aumento da síntese de proteínas no organismo, que associada a exercícios físicos aumenta a massa muscular e a força.

Tanto homens quanto mulheres produzem normalmente a testosterona, sendo que elas em quantidade muito menor. A hipófise, glândula localizada no cérebro, produz uma substância chamada gonadotrofina, que avisa aos órgãos reprodutores que é necessária a produção da testosterona. Quando a testosterona está circulando no sangue, um mecanismo desliga a hipófise, que pára de enviar sinais para o organismo. Mas quando se consome testosterona sintética, o organismo suspende o comando de liberação de ganadotrofina pela hipófise e, conseqüentemente, as funções dos testículos, onde se fabricam o hormônio e os espermatozóides é paralisada; desta forma, uso de anabolizante poderá causar a infertilidade.

Os anabolizantes não esteróides, como os aminoácidos, ajudam a sintetizar proteínas. São como os tijolos de uma parede. Só têm algum efeito se associados à alimentação e exercícios físicos. Com uma dieta bem balanceada, com grande quantidade de proteínas, obtém-se o mesmo efeito sem os riscos dos anabolizantes sobrecarregarem os rins.

Desenvolvimento de Ginecomastia pelo uso de anabolizantes

O desenvolvimento de ginecomastia à custa de anabólicos resulta daquele estrógeno que atinge a mama, derivado da conversão dos anabolizantes para aquele hormônio, isto porque há presente no corpo masculino uma enzima capaz de converter a testosterona e alguns anabolizantes para o estrogênio. Esta enzima se chama aromatase. Esta é a razão pela qual se diz que determinados anabolizantes "aromatizam" e outros não. Presumi-se que a maioria, se não todos os esteróides de carbono 19, possam ser convertidos em estrógenos. Assim, com o uso de esteróides há uma abundância de substrato para conversão, o que aumenta a atividade da enzima, levando ao aumento nas concentrações de estrogênio e aparecimento de ginecomastia.

Existe também outra forma pela qual a ginecomastia pode se desenvolver em usuários de anabolizantes, ou seja, ocorre pela ação direta de alguns esteróides que possuem a capacidade de se ligarem aos receptores da progesterona, exercendo efeitos similares a este hormônio, conhecidos por progestinas ou progestogênios. É um tipo de ginecomastia conhecida no meio do fisiculturismo como "ginecomastia progestênica".

Efeitos colaterais do uso de anabolizantes

Acne:
o uso de anabolizantes leva ao desenvolvimento de acne, por fazer com que a glândula sebácea produza mais óleo. Combinando isso com bactérias do ar, pele e outros como o suor forma-se a acne.

Agressividade: este é um efeito bastante comum; a agressividade pode ocasionar sérios problemas sociais, como perda de controle no trato com problemas triviais diários que fazem parte da vida de todos nós, podendo também ocasionar alienação e distanciamento daqueles que nos deveriam ser caros, os familiares, os amigos e os colegas de trabalho.

Novamente são os esteróides mais androgênicos que causam este efeito mais acentuado. A testosterona é conhecida como o hormônio da agressividade masculina natural para enfrentar a vida; já o seu excesso só proporciona distúrbios de comportamento.

Calvície: a dihidrotestosterona faz com que o folículo capilar pare de crescer. Homens com tendência à calvície têm mais concentração de DHL e afinidade a androgênicos no folículo do cabelo. A oleosidade do couro cabeludo pela ativação das glândulas sebáceas e produção excessiva de óleo colabora com a perda de cabelo.

Aumento do colesterol: os esteróides muito freqüentemente têm como efeito o aumento de LDL (mau colesterol) e a diminuição de HDL (bom colesterol). O aumento de LDL ocasiona o depósito de gordura nas artérias, aumentando o risco de enfarte e derrame.

Dor de cabeça: ocasionada pelos esteróides mais androgênicos é um dos efeitos da elevação da pressão arterial.
Hepatotoxicidade: a maioria dos esteróides anabolizantes causa lesão no fígado; sendo que os 17 alpha-alquelados são os mais tóxicos, pela dificuldade de processamento. Efeitos mais sérios como icterícia, representada pelo amarelamento da pele, das unhas e do branco dos olhos é um sinal para imediata interrupção do medicamento e procura de orientação médica para monitoração das funções hepáticas.

Hipertensão arterial: os esteróides tendem a reter água em várias partes do organismo, inclusive no sangue, fazendo com que este aumente de volume, tendo como conseqüência o aumento da pressão arterial. Os sintomas mais comuns da hipertensão são dores de cabeça, insônia e dificuldade respiratória e, atenção para a ingestão de comidas salgadas, pois o sódio é elemento agravante.

Hipertrofia prostática: observa-se que DHL tem importante papel no mecanismo de aumento prostático, que poderá induzir no futuro o aparecimento de câncer. Este problema habitualmente acontece com homens de mais idade, nos quais, naturalmente, a quantidade de DHL é maior.

Impotência e Esterilidade: no início de um ciclo de esteróide, o homem normalmente passa por um período de excitação sexual, com aumento na freqüência de ereções. Porém, este efeito tem duração de algumas semanas, revertendo-se gradualmente para a perda de interesse sexual. Esta redução da libido sexual é resultado do cessamento ou redução na produção natural de testosterona, devido à elevação excessiva de testosterona no corpo, proveniente da administração de esteróides anabólicos. Assim, com a falta da testosterona a espermatogênese é comprometida e cessa a produção de espermatozóides.

Insônia: os esteróides têm efeito estimulante no sistema nervoso central, o que pode provocar insônia.

Limitação do crescimento: alguns esteróides, se utilizados por longo período ou em grande quantidade, têm como efeito colateral o fechamento prematuro dos discos de crescimento localizados nas epífises ósseas. Certamente este não é um problema para usuários maduros, mas uma preocupação para os mais jovens, ainda em fase de crescimento.

Problemas nos tendões e ligamentos:
com o efeito de esteróides anabólicos o músculo se toma mais forte pelo aumento no tamanho das fibras musculares e pela maior retenção de fluídos. Desta forma, este aumento de força é desproporcional à capacidade de adaptação dos tendões e ligamentos, que têm este processo mais lento e não suportam a sobrecarga dos exercícios físicos com carga, ficando suscetíveis às lesões.

Virilização nas mulheres: é comum ocorrerem efeitos como crescimento de pêlos na face, engrossamento da voz, hipertrofia do clitóris e amenorréia ou suspensão da menstruação.

Tratamento

Para a ginecomastia causada pelo uso de esteróides, depois de já instalada, o tratamento efetivo é a cirurgia.

A técnica cirúrgica indicada depende do tipo de ginecomastia e do seu grau de desenvolvimento. A proposta cirúrgica envolve a retirada quase total da glândula, deixando apenas uma pequena quantidade para não deixar depressão nesta área.

A lipoaspiração em alguns casos é utilizada, principalmente nas pseudoginecomastias ou nas ginecomastias mistas, para promover maior uniformidade do resultado. As incisões e cicatrizes resultantes dependem do volume da ginecomastia; sendo a mais comum a peri-areolar inferior, mas há casos de ginecomastia consideráveis, que necessitam ser resolvidas com técnicas de mamaplastia redutoras usadas no sexo feminino.

No pós-operatório o paciente deverá manter repouso relativo e, muitas vezes, é obrigado a usar uma faixa de compressão por aproximadamente 3 a 4 semanas.

Que sirva de alerta a todos: mesmo quem fez a cirurgia de ginecomastia, esta poderá desenvolver-se novamente se o indivíduo persistir no uso de anabolizantes, pois a glândula não é inteiramente retirada.

voltar