 |
Ao meu pai que não se encontra mais aqui
devo a minha profissão de médico. Tenho
na lembrança que quando era criança
ele me chamava de Doutor e assim me apresentava aos
seus colegas. Depois, medicina virou quase que uma
obsessão e não foi fácil me formar
em médico. Na minha cidade, São Luís,
na minha época só tinha uma faculdade
de medicina e um vestibular dificílimo, muito
concorrido. |
 |
Mas, passei e, achava que tinha conseguido o meu
intento de ser médico. Pronto, agora é
só terminar o curso para ser médico
e já serei Doutor. Pronto nada; passaram-se
os seis anos, me formei e depois veio o questionamento
qual o tipo de doutor eu iria ser. Mais uma vez o
meu pai aparece: -"por que você não
se torna um médico que opera, ou melhor, um
obstetra?". Realmente, comecei a minha vida cirúrgica
nas maternidades, mas não segui carreira. Durante
a residência de cirurgia geral tive a orientação
de permanecer nesta área e dois convites com
bolsas de estudo para fora do Brasil nas especialidades
de ortopedia e protologia.
Quando estava terminando a residência de cirurgia
geral o meu pai enfartou e tive que acompanhá-lo
até São Paulo para a colocação
de pontes de safena. |
Naquela ocasião conheci um famoso cirurgião
cardíaco que sugeriu que eu fizesse concurso naquele
hospital, pois, assim sendo eu estaria prestando um serviço
à minha cidade carente de cirurgia do coração.
Mas, a minha opção ficou com a cirurgia plástica
que ainda tinha pouca informação. Tive
que vir para o Rio de Janeiro para realizar a minha vontade
de ser cirurgião plástico. Mais uma vez não
encontrei facilidade; prestei concurso para alguns serviços
da especialidade pretendida e fui aprovado para o Instituto
Nacional de Câncer. Mudar de cidade e ficar longe
dos seus foi uma luta que tive que enfrentar com todas as
saudades, perseverança e muita batalha.
Passaram-se
já vinte e quatro anos que me encontro formado
como médico e dezoito anos como cirurgião
plástico. Um bom tempinho.
Como cirurgião plástico, lembro-me que no
início da carreira era um eterno insatisfeito.
Estava sempre exigindo o máximo da perfeição
do corpo aliado aos meus conceitos de que poderia consertá-lo
da maneira mais exata e bonita. Essa exigência não
mudou, mas percebi com a experiência vivida que
as limitações dos desejos pretendidos pelo
paciente podem ser compreendida e perfeitamente possíveis,
mas os "poréns" existem na sua idealização
e no seu projeto final. Não somos totalmente simétricos,
nossa visão de beleza não é igual,
continuamos envelhecendo e dependemos muito do nosso corpo
no que concerne a sua reação natural.
Em
cirurgia plástica a cicatriz advém de uma
incisão. É um fim que deverá está
mimetizada, escondida e imperceptível, mas ela
poderá se comportar de uma maneira que independe
do desejo do paciente, da cirurgia bem realizada e do
cirurgião; assim como, as trações
deverão ser as mais naturais possíveis,
não bastando apenas esticar, pois, se esticar demais
ou errado ficará artificial. Para ser cirurgião
plástico há de se seguir uma filosofia de
pensar e traduzir nos movimentos manuais a sua arte e
magia.
Com
relação à beleza física relaciono
quatro tipos: a que somos, a que vemos, a que queremos
e a que nos é imposta. A beleza que somos é
nata, "nascemos belos". A nossa visão
constitui a nossa primeira vaidade, pois com ela passamos
a nos compararmos uns com os outros e, pela nossa natureza
de insatisfação passamos a desejar a beleza
do outro. Já
a beleza imposta é seguida por todos nós;
pacientes e cirurgiões plásticos. São
os conceitos, os interesses, as tendências do mundo
em movimento dinâmico constante. Quando comecei
a praticar a cirurgia plástica seios bonitos eram
aqueles de volumes pequenos e, assim as mastoplastias
redutoras constituíam o desejo da época:
"ter seios juvenis". As inclusões de
próteses tinham um caráter preconceituoso,
mas hoje são as mastoplastias de aumento com o
implante de silicone que passaram a ser o desejo de muitas
mulheres, "as mamas sensuais e sedutoras".
É bem verdade que estamos vivendo cada vez mais,
mas nunca paramos de envelhecer mesmo com a cirurgia plástica
que atenua as durezas do tempo. Para algumas técnicas
existe um tempo de validade; um lift facial dura em média
5 a 8 anos e as próteses de mama têm que
ser trocadas a cada dez anos. Acho particularmente como
cirurgião plástico que o tempo de parar
é válido tanto para o cirurgião plástico
como para qualquer paciente.
O paciente de cirurgia plástica é leigo
no conhecimento da especialidade. Normalmente procura
anseios e desejos de realizações de procedimentos
que acha ser muito fácil fazer. Cirurgia plástica
é medicina, leva-se anos para se aprender o domínio
de suas técnicas e não podemos desrespeitar
as leis naturais deste complexo corpo com tanta facilidade.

|
O
verdadeiro enfrentamento com Deus acontece a cada
cirurgia, pois temos que controlar as nossas vaidades.
É com os pacientes da cirurgia plástica
reparadora quando nos deparamos com as mutilações:
uma queimadura, um câncer e suas conseqüências
que nos curvamos ao criador. Conseguimos reparar
com as mais modernas técnicas cirúrgicas,
colocamos todo o nosso empenho e entusiasmo, mas
o nosso melhor nunca alcançará a perfeição
do cirurgião maior, Deus. Nós cirurgiões
plásticos e pacientes continuamos a ser as
criaturas do criador.
|
Devemos
ter respeito pelo corpo, não podemos aceitar as
tiranias de beleza que nos é imposto, escravizar-se
pelo "corpo perfeito", temos que controlar a
nossa eterna busca da juventude e da sensualidade extremada.
Devemos manter a nossa mente saudável assim como
é obrigação tratarmos bem do nosso
corpo.
 |
O
meu pai quando completou os seus cinqüenta anos
foi a um "fotógrafo" e disse a este
amigo que o fizesse bem bonito e fez a seguinte dedicação
à minha mãe:
"À
minha querida esposa Bibi todo o meu carinho, Zé
Vieira".
|
|
 |
Este
ano completo 50 anos e como o meu pai dedico esta
foto a ele: "Valeu Pai todo o seu esforço
para me tornar médico. O meu pai faleceu no
ano que me formei em Cirurgião Plástico. |
Perguntinhas Básicas:
Signo:
Virgem.
Bebida preferida: Chapangne
Comida preferida: Frutos do mar com massa
Perfume: Não tenho um em particular.
Hobbie: Música, jardinagem, fotografia.
Melhor cidade que o Senhor já visitou: Paris.
Se não morasse no Brasil moraria onde: França.
Beleza é: Desejo.
Cirurgia Plástica é: Vocação.
|